O QUE A CONCHAGEM FAZ COM O CHOCOLATE?

 


O QUE SIGNIFICA CONCHAR?

Conchar é muito mais do que simplesmente mexer o chocolate durante muitas horas. Trata-se de um processo controlado que combina mistura, cisalhamento, aeração e aquecimento. Durante essa etapa, são desenvolvidos o aroma, a fluidez e a sensação do chocolate na boca.

Entretanto, a base do sabor já foi construída muito antes: pela variedade do cacau, cultivo, fermentação, secagem e torra. A conchagem trabalha esse potencial. Ela pode valorizar uma boa matéria-prima, mas não consegue corrigir completamente um cacau defeituoso.

O QUE ACONTECE DURANTE A FERMENTAÇÃO DO CACAU?

A fermentação do cacau envolve a ação sucessiva de diferentes microrganismos. Inicialmente, leveduras utilizam os açúcares presentes na polpa. Em seguida, entram em ação bactérias láticas e acéticas. Esse processo produz calor, ácidos e numerosos precursores aromáticos.

Não existe, porém, uma regra universal dizendo que o cacau precisa estar “90% ou 95% fermentado”. O ponto ideal depende da genética, da origem, do estado dos frutos e do perfil aromático desejado. Tanto uma fermentação insuficiente quanto uma fermentação excessiva podem prejudicar a qualidade.

Os polifenóis também precisam ser compreendidos com equilíbrio. Eles apresentam atividade antioxidante, mas participam da amargura e da adstringência. Uma parte é transformada ou reduzida durante a fermentação, a secagem, a torra e a fabricação do chocolate.

O objetivo não é conservar a maior quantidade possível de polifenóis, mas alcançar um equilíbrio entre sabor, cor e composição.

AS TRÊS PRINCIPAIS FUNÇÕES DA CONCHAGEM

1. REDUZIR A UMIDADE E OS ÁCIDOS VOLÁTEIS

Depois da fermentação e da torra, a massa de cacau ainda pode conter compostos ácidos voláteis, especialmente ácido acético. Até mesmo uma pequena quantidade de umidade interfere fortemente no comportamento do chocolate.

Durante a conchagem, o calor, o movimento e a troca de ar favorecem a eliminação de água e de substâncias voláteis indesejáveis. Com isso, a acidez agressiva diminui e o sabor se torna mais equilibrado.

Mas existe um detalhe importante: nem todo aroma volátil é desagradável.

Quando o chocolate é conchado por tempo excessivo, com temperatura muito alta ou aeração intensa, aromas frutados e florais também podem ser perdidos. A conchagem precisa eliminar defeitos sem apagar a identidade do cacau.

2. ENVOLVER AS PARTÍCULAS COM GORDURA

Chocolate não é simplesmente um líquido. Tecnicamente, ele é uma suspensão concentrada: partículas de açúcar, cacau e, dependendo da receita, leite estão dispersas em uma fase gordurosa contínua.

Durante a conchagem, essas partículas são progressivamente envolvidas pela manteiga de cacau. Aglomerados são desfeitos, o atrito entre as partículas diminui e a massa começa a fluir melhor.

Isso melhora:

  • a fluidez;

  • a trabalhabilidade;

  • a textura;

  • o derretimento;

  • a sensação na boca.

No entanto, a conchagem não é a principal responsável por reduzir o tamanho das partículas. Essa redução acontece principalmente durante a refinação ou passagem pelos rolos.

A conchagem melhora especialmente a distribuição, a dispersão e o envolvimento das partículas já refinadas pela gordura.

3. DESENVOLVER O PERFIL AROMÁTICO

Durante a conchagem, modificações físicas e químicas acontecem ao mesmo tempo. Compostos voláteis indesejáveis são reduzidos e outros aromas tornam-se mais perceptíveis.

Dependendo da temperatura, do tempo, da umidade e da composição da receita, também podem ocorrer reações que influenciam notas torradas, caramelizadas ou lácteas.

Às vezes se afirma que apenas o açúcar cristal poderia estabelecer uma ligação química especial com o cacau. Essa afirmação não encontra sustentação científica.

O resultado depende do tipo de açúcar, da granulometria, da quantidade de água, da temperatura e da composição completa do chocolate. Não existe uma única “ligação mágica” entre açúcar e cacau capaz de explicar o desenvolvimento do sabor.

AS FASES DA CONCHAGEM

De maneira didática, podemos dividir a conchagem em três fases principais.

 

FASE SECA

Inicialmente, a massa apresenta aparência granulada, seca ou esfarelada. A ação mecânica desfaz aglomerados e expõe uma superfície maior das partículas.

Nessa fase, a umidade e os ácidos voláteis conseguem escapar com maior facilidade.

FASE PLÁSTICA

A massa começa a se tornar mais compacta e pastosa. A gordura se distribui progressivamente sobre as superfícies sólidas.

O atrito, a temperatura e as forças de cisalhamento modificam claramente o comportamento da massa.

FASE LÍQUIDA

Com a distribuição ou adição de mais gordura, o chocolate se torna progressivamente mais fluido. Nessa fase, são ajustadas a viscosidade, a tensão de escoamento e as características necessárias para a aplicação desejada.

Os emulsificantes podem ajudar no controle da fluidez, mas não substituem uma conchagem corretamente conduzida.

QUANTAS HORAS O CHOCOLATE PRECISA SER CONCHADO?

Não existe uma resposta universal.

Máquinas antigas frequentemente exigiam processos muito longos. Os equipamentos modernos conseguem transferir energia mecânica e térmica com maior eficiência, além de controlar com mais precisão a temperatura, a ventilação e o cisalhamento.

Por isso, um processo moderno pode alcançar resultados excelentes em muito menos tempo. Ao mesmo tempo, uma pequena máquina artesanal pode precisar de muitas horas para produzir uma transformação semelhante.

O tempo necessário depende de vários fatores:

  • variedade e origem do cacau;

  • qualidade da fermentação;

  • perfil de torra;

  • teor de cacau;

  • presença de leite;

  • umidade residual;

  • tamanho e distribuição das partículas;

  • quantidade de gordura;

  • capacidade e construção do equipamento;

  • temperatura;

  • ventilação;

  • intensidade do cisalhamento;

  • perfil aromático desejado.

Portanto, chocolates amargos, ao leite e brancos não possuem tempos obrigatórios e universais de conchagem.

Dizer apenas que um chocolate foi conchado durante 12, 24 ou 72 horas revela muito pouco quando não conhecemos a máquina, a temperatura, a aeração e a energia transferida para a massa.

Tempo de conchagem não é certificado de qualidade.

É POSSÍVEL CONCHAR DEMAIS?

Sim. Mais tempo não significa automaticamente mais qualidade.

Uma conchagem excessiva pode eliminar aromas característicos do cacau. O chocolate talvez fique mais suave, mas também mais plano, neutro e sem identidade.

Além disso, aumentam o consumo de energia, o custo de produção e a exposição da massa ao calor.

O ponto adequado é alcançado quando:

  • a acidez agressiva foi suficientemente reduzida;

  • a umidade residual está controlada;

  • as partículas estão bem envolvidas pela gordura;

  • a fluidez desejada foi alcançada;

  • o perfil aromático está equilibrado;

  • as características próprias do cacau continuam presentes.

Esse ponto deve ser definido por medições técnicas e avaliações sensoriais. O relógio, sozinho, não consegue identificá-lo.

QUAL DEVE SER A FINURA DO CHOCOLATE?

Com frequência, busca-se uma granulometria inferior a aproximadamente 30 micrômetros, pois partículas maiores podem começar a ser percebidas como arenosas na boca.

Isso não significa que quanto menor a partícula, melhor será o chocolate.

Partículas extremamente finas apresentam uma superfície total maior. Consequentemente, precisam de mais gordura para serem completamente envolvidas. Isso pode aumentar a viscosidade e dificultar o processamento.

A percepção na boca também não depende apenas do tamanho médio. A distribuição granulométrica, o formato das partículas e a presença de aglomerados são igualmente importantes.

A finura é uma ferramenta tecnológica, não uma prova isolada de qualidade.

DE QUE DEPENDE UM BOM CHOCOLATE?

O sabor é construído por uma cadeia completa de decisões:

  1. Genética e origem do cacau

  2. Cultivo, maturação e colheita

  3. Fermentação e secagem

  4. Armazenamento e transporte

  5. Perfil de torra

  6. Moagem e refinação

  7. Formulação e teor de gordura

  8. Conchagem

  9. Pré-cristalização

  10. Moldagem, resfriamento e armazenamento

Nenhuma dessas etapas pode ser analisada completamente de forma isolada.

Uma massa perfeitamente conchada não se transforma automaticamente em um bom chocolate quando o cacau foi mal fermentado, queimado durante a torra ou armazenado de maneira incorreta.

Da mesma forma, um excelente cacau pode perder parte de sua identidade quando o processo é conduzido apenas para eliminar toda acidez e toda característica mais intensa.

CONCLUSÃO

Conchar não significa simplesmente deixar o chocolate girando durante o maior número possível de horas.

O que realmente importa é o que acontece durante esse tempo.

Calor, cisalhamento, ventilação, umidade e distribuição da gordura precisam ser controlados de maneira consciente. O ponto ideal é alcançado quando aroma, textura e fluidez trabalham juntos.

Um bom chocolate deve conservar parte da identidade de seu cacau. Acidez, amargor, notas frutadas, florais ou terrosas não são necessariamente defeitos. Quando estão equilibradas, essas características tornam o chocolate único.

A conchagem não deveria transformar todos os cacaus no mesmo produto neutro. Sua função é retirar excessos, desenvolver o sabor e preparar uma estrutura adequada para o processamento.

O relógio mede o tempo. Não mede a qualidade.

REFERÊNCIAS PARA APROFUNDAMENTO

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UMA ANÁLISE CRÍTICA DAS FUNÇÕES DO LEITE NO BOLO É BISCUIT (PÃO DE LÓ)

Quer saber a diferença entre o chocolate, couverture e cobertura sabor chocolate?

A QUÍMICA DO AÇÚCAR