Dois pães, a mesma receita. Resultados completamente diferentes.
Imagine duas padarias preparando exatamente a mesma receita:
farinha de trigo;
água;
fermento;
sal.
Os ingredientes são idênticos.
A farinha é a mesma.
A quantidade de água é a mesma.
O padeiro utiliza o mesmo forno.
Mesmo assim, um pão pode ser melhor tolerado pelo organismo do que o outro.
A diferença não está na receita. Está no processo.
Pão A – Fermentação rápida
A massa fermenta durante aproximadamente uma hora.
Essa é a realidade de muitas padarias brasileiras. Quanto menor o tempo de produção, maior a produtividade e menor o custo.
O pão fica bonito, macio e vende bem.
Porém, durante uma fermentação curta, diversas transformações bioquímicas acontecem apenas parcialmente. O amido permanece mais disponível para digestão rápida, o ácido fítico é pouco degradado, parte dos FODMAPs continua presente e a formação de compostos aromáticos é limitada.
O resultado pode ser um pão com sabor menos complexo e que algumas pessoas relatam digerir com mais dificuldade.
Pão B – Fermentação longa
Agora imagine exatamente a mesma receita. A única diferença é deixar a massa fermentar lentamente durante muitas horas.
Nesse período, leveduras, bactérias lácticas e enzimas naturais da farinha trabalham continuamente.
Durante essa fermentação ocorrem diversas modificações:
formação de centenas de compostos responsáveis pelo aroma;
degradação parcial dos FODMAPs;
redução do ácido fítico, aumentando a disponibilidade de alguns minerais;
hidrólise parcial de proteínas do trigo (o pão não se torna adequado para pessoas com doença celíaca);
formação de uma estrutura mais estável e sabor mais intenso.
Ou seja, os ingredientes continuam exatamente os mesmos. O que muda é a química da fermentação.
O processo é mais importante do que a receita
Na panificação, a receita é apenas o ponto de partida.
São o tempo, a fermentação e o conhecimento técnico que transformam farinha, água, fermento e sal em um produto completamente diferente.
Por isso, discutir apenas se o pão é branco ou integral é uma simplificação.
Um pão integral produzido rapidamente pode apresentar características metabólicas diferentes de um pão submetido a uma fermentação longa.
Da mesma forma, dois pães feitos com a mesma farinha podem provocar respostas fisiológicas distintas simplesmente porque foram produzidos de maneiras diferentes.
A realidade brasileira
No Brasil, muitas padarias precisam produzir milhares de pães diariamente. A fermentação longa exige mais espaço, planejamento e aumenta os custos de produção.
Isso não significa que o pão produzido rapidamente seja "ruim". Significa apenas que existem limitações econômicas que influenciam diretamente o processo tecnológico.
Quando o padeiro dispõe de tempo para uma fermentação mais longa, normalmente obtém um pão com aroma mais desenvolvido, melhor textura e, para muitas pessoas, melhor digestibilidade.
A verdadeira diferença, portanto, não está apenas na farinha.
Ela está no conhecimento do profissional e no tempo que ele permite que a ciência trabalhe dentro da massa.
Referências científicas
Scazzina F., Del Rio D., Pellegrini N., Brighenti F. (2009). Sourdough bread: Starch digestibility and postprandial glycemic response. Journal of Cereal Science, 49(3), 419–421. https://doi.org/10.1016/j.jcs.2008.12.008 (ScienceDirect)
Aune D. et al. (2016). Whole grain consumption and risk of cardiovascular disease, cancer, and all cause and cause specific mortality: systematic review and dose-response meta-analysis. The BMJ, 353:i2716. https://www.bmj.com/content/353/bmj.i2716 (ScienceDirect)

Comentários
Postar um comentário