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A IGNORÂNCIA MODERNA NA CONFEITARIA

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A ignorância do nosso tempo já não se revela pela falta de receitas. Nunca tivemos acesso tão rápido a vídeos, cursos, livros, tabelas e informações científicas. Mesmo assim, muita gente continua copiando sem compreender. A ignorância moderna veste um avental limpo, utiliza uma boa iluminação para gravar vídeos e fala com impressionante segurança. Conhece as últimas tendências, mas nem sempre entende a função dos ingredientes. Mostra um belo resultado, porém dificilmente consegue explicar por que deu certo — ou por que poderá dar errado amanhã. Antigamente, a falta de conhecimento era mais escondida.  Hoje ela é filmada, editada e publicada. Nas redes sociais, muitas vezes não vence a melhor explicação técnica, mas a imagem mais bonita, a frase mais curta ou a afirmação mais barulhenta. Quem explica com profundidade perde espaço para quem promete: “Com este segredo, sempre dá certo!” Mas na confeitaria quase não existem segredos. Existem física, química, biologia, experiência artes...

DOCE CIÊNCIA: Muito Além das Receitas

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A busca pela Fórmula Universal da Confeitaria Um projeto que nasceu de mais de 50 anos de estudo, prática e ensino. Vivemos uma época em que receitas estão por toda parte. Nunca foi tão fácil copiar uma formulação. Mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil compreender por que ela realmente funciona. Durante mais de 50 anos dedicados à confeitaria, panificação, chocolateria e sorveteria, descobri que o verdadeiro conhecimento não está nas receitas, mas nos princípios que existem por trás delas. Foi essa convicção que deu origem aos meus livros e, agora, a um projeto ainda maior. Ao longo dos anos, organizei aquilo que chamo de Arquitetura das Receitas : uma forma de compreender proporções, estruturas e funções dos ingredientes, permitindo criar, adaptar e corrigir formulações com muito mais segurança. Mas percebi que ainda faltava uma peça importante. Uma receita não depende apenas das matérias-primas e das proporções. Ela só ganha vida quando entram em ação a técnica, as transf...

O QUE A CONCHAGEM FAZ COM O CHOCOLATE?

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  O QUE SIGNIFICA CONCHAR? Conchar é muito mais do que simplesmente mexer o chocolate durante muitas horas. Trata-se de um processo controlado que combina mistura, cisalhamento, aeração e aquecimento . Durante essa etapa, são desenvolvidos o aroma, a fluidez e a sensação do chocolate na boca. Entretanto, a base do sabor já foi construída muito antes: pela variedade do cacau, cultivo, fermentação, secagem e torra. A conchagem trabalha esse potencial. Ela pode valorizar uma boa matéria-prima, mas não consegue corrigir completamente um cacau defeituoso. O QUE ACONTECE DURANTE A FERMENTAÇÃO DO CACAU? A fermentação do cacau envolve a ação sucessiva de diferentes microrganismos. Inicialmente, leveduras utilizam os açúcares presentes na polpa. Em seguida, entram em ação bactérias láticas e acéticas. Esse processo produz calor, ácidos e numerosos precursores aromáticos. Não existe, porém, uma regra universal dizendo que o cacau precisa estar “90% ou 95% fermentado”. O ponto ideal depende d...

Temperagem ou pré-cristalização: pensamos em temperaturas ou em cristais?

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Imagem: Abner Ivan Muitos chocolatiers aprendem a temperagem do chocolate por meio de uma curva simples: Aquecer – resfriar – aquecer novamente. Esse método é prático e pode funcionar muito bem. Porém, traz um risco didático: começamos a acreditar que as temperaturas corretas garantem automaticamente um chocolate corretamente pré-cristalizado. Mas temperatura não é cristal. O verdadeiro objetivo é construir uma estrutura cristalina adequada na manteiga de cacau. Por isso, prefiro o termo pré-cristalização . Ele descreve com maior precisão o que procuramos: formar, antes da solidificação completa, uma quantidade suficiente de cristais adequados. Legenda: O mesmo chocolate, mas com estruturas cristalinas diferentes. Brilho, contração e quebra não dependem apenas da temperatura. A manteiga de cacau pode se organizar de diferentes maneiras A manteiga de cacau é formada principalmente por diferentes triacilgliceróis. Durante o resfriamento, essas moléculas de gordura podem se organizar de m...

O VALOR QUE NÃO CABE EM CURTIDAS

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  O trabalho voluntário sempre fez parte da minha vida. Já trabalhei em cozinhas comunitárias, no meio do mato, em cargos de direção sindical e também oferecendo gratuitamente aquilo que aprendi ao longo de mais de 50 anos de profissão. Cada uma dessas experiências me ensinou algo importante: quando entregamos um pouco do nosso tempo, não ajudamos apenas os outros. Algo também se transforma dentro de nós. UMA NOVA FORMA DE CONTRIBUIR Hoje, minha contribuição acontece de outra maneira. Compartilho conhecimentos, escrevo artigos técnicos, preparo apostilas e desenvolvo materiais para apoiar estudantes, profissionais e pessoas que estão começando na panificação, confeitaria e confiserie. Mas minha contribuição não se limita às publicações. Cada vez mais, converso diretamente com pessoas que precisam ser ouvidas e que, de alguma forma, posso ajudar. Às vezes, elas precisam de uma orientação profissional. Em outros momentos, precisam apenas de alguém que escute com respeito, atenção e h...

PÃO DE QUEIJO É PÃO? EU ESTOU COMEÇANDO A MUDAR DE IDEIA

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    Fonte imagem: https://moinhoglobo.com.br/ Durante muito tempo, para mim, a resposta técnica era bastante simples: Não leva farinha de trigo, não depende de uma rede de glúten e, principalmente, sua massa não passa pela fermentação que normalmente associamos à panificação. Não há levedura produzindo CO₂ para fazer a massa crescer. Sua expansão no forno ocorre por outros mecanismos. Portanto, tecnicamente, eu o colocava em outra categoria. Mas ciência tem uma característica que considero fundamental: quando aparece uma informação nova, precisamos estar dispostos a rever nossas próprias conclusões. E foi exatamente isso que aconteceu comigo. Comecei a olhar com mais atenção para o polvilho azedo . Ele não é simplesmente uma fécula de mandioca que retiramos da raiz, secamos e utilizamos. Existe um processo anterior muito interessante: a fécula passa por fermentação , seguida tradicionalmente de secagem ao sol. Essa combinação modifica profundamente suas propriedades. A ferment...

QUEM DÁ NOME ÀS MASSAS?

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                                            Torta Holandese O nome preserva a tradição. A técnica explica o produto. Na confeitaria aprendemos muitos nomes: Hollandaise, Frangipane, merengue francês, suíço, italiano, biscuit, génoise, sablé, pâte sucrée … Mas existe uma pergunta que raramente fazemos: Quem decidiu esses nomes – e o que eles realmente nos ensinam sobre a massa? Muitos nasceram da tradição profissional, de regiões, países, escolas ou sistemas de formação. Isso faz parte da história da confeitaria e merece ser preservado. O problema começa quando o nome substitui a compreensão. Saber executar uma receita chamada Hollandaise não significa necessariamente compreender por que ela funciona. É exatamente aí que começa a Doce Ciência . HOLLANDAISE: O QUE EXISTE POR TRÁS DO NOME? Uma formulação clássica de Hollandaise pode apresentar uma arquitetura muito interessante: m...