O GRITO DA PROFISSÃO: O FIM DA IDENTIDADE DOS CONFEITEIROS NO BRASIL?

 

                                            Arte: Helio Bueno


Há cerca de 15 anos, lutei uma batalha que muitos profissionais no Brasil podem compreender. O Brasil é imenso, e as definições regionais na linguagem técnica sempre foram comuns. No entanto, era possível que profissionais bem formados se entendessem entre si. Felizmente, com o tempo, o conhecimento internacional se consolidou e uma terminologia padronizada começou a se firmar. Mas hoje, observo com grande preocupação um retrocesso massivo.

As feiras profissionais e eventos do setor em todo o país não seguem mais um código de ética ou uma definição comum da profissão. Cada um parece vender sua própria versão da verdade. O pior é que muitos desses organizadores e expositores não são sequer profissionais certificados. Existem inúmeras escolas não reconhecidas oferecendo cursos rápidos, prometendo formar profissionais em poucas semanas. Mas a formação de verdade leva no mínimo três anos! Nossa profissão se desenvolveu e se conectou internacionalmente ao longo de séculos. É uma arte e uma ciência reconhecida no mundo inteiro, que não pode ser destruída pela falta de critérios e pela banalização do conhecimento.

No Brasil, não há definições claras para nossa profissão. Qualquer pessoa pode se expressar como quiser e não estará cometendo nenhum erro legal. Mas isso não significa que podemos simplesmente ignorar o que já foi estabelecido e comprovado ao longo do tempo. A liberdade das redes sociais tem agravado ainda mais essa situação, pois qualquer um pode espalhar informações sem base ou contexto.

Eu falo para aqueles que desejam, do fundo do coração, uma formação profissional de qualidade, mas não têm acesso a ela – não para aqueles que precisam encontrar uma forma de complementar a renda para sustentar suas famílias.

Lembro-me com horror das vezes em que até mesmo meus próprios alunos, que mal conheciam os fundamentos da profissão, tentavam me corrigir. Muitos anos atrás, na UNIRIO, quase fiquei desesperado porque expliquei que a massa se chama "pâte à choux" e não "massa bomba". Com 35 alunos em uma sala, não tive chance de me impor.

Muitas vezes me perguntei de onde vinham esses nomes errados. Como suíço, nunca vi uma "Torta Suíça" na Suíça ou uma "Limonada Suíça", quando nem limão cresce na Suíça ou merengues suíço! Também nunca tinha ouvido falar de "Torta Alemã", "Torta Holandesa", "Pão Italiano" ou "Pão Francês" antes de vir para o Brasil. Vocês podem imaginar como foi para mim ser constantemente corrigido por quem desconhecia a história e a técnica reais da profissão. Mas, com cursos profissionais e formação em escolas credenciadas, isso foi mudando lentamente.

Infelizmente, agora vejo essa situação piorar novamente. Desde a pandemia, a formação profissional mudou drasticamente. A proliferação de transmissões ao vivo, cursos online sem critério e escolas privadas sem regulamentação criou um ambiente caótico. Uma dessas escolas ou professora chega a prometer um faturamento de R$ 20 mil por mês – um absurdo e uma enganação sem escrúpulos.

Hoje, não reconheço mais minha própria profissão no Brasil. Em transmissões ao vivo, ouço termos e conceitos que jamais aprendi em minha formação ou em qualquer outro lugar do mundo. Chegará o momento em que os leigos voltarão a querer ensinar os profissionais? Isso não pode acontecer!

Mas agora não são mais 35 alunos em uma sala de aula, e sim influenciadores com milhões de seguidores. Com meus poucos milhares de seguidores, mesmo apresentando fatos concretos, sou ridicularizado e silenciado – tudo de forma “democrática”, pela força da maioria.

Nossa profissão é internacionalmente reconhecida, baseada em conhecimento científico e histórico. Não podemos permitir que um tesouro de séculos seja destruído pela falta de critério e responsabilidade. Esse é o meu grito – mais alto e urgente do que nunca.

E você, o que pensa sobre isso? Você está satisfeito com os rumos da profissão ou também se sente frustrado? Compartilhe sua opinião – sei que muitos ficarão chocados e decepcionados, pois desconhecem essa realidade e acabam se frustrando comigo por expô-la. Enquanto isso, outros estarão satisfeitos com esse novo cenário.

Sei que muitos se alegram por eu expor essa realidade, mas a maioria tem medo de perder o emprego ou ser atacada publicamente. O risco de ser ridicularizado ou marginalizado é real – e infelizmente, sei disso por experiência própria.

Comentários