QUANDO SABER POUCO VENDE MAIS DO QUE SABER MUITO
Nosso ofício tem algo de mágico. Ele atrai. Promete dinheiro, liberdade, sucesso rápido. Parece simples de executar. Pelo menos é assim que é vendido. Em todos os níveis.
Quando se sabe pouco, transmite-se pouco. E com muita convicção. Quando se sabe muito, surge a cautela. As dúvidas aumentam. Os “depende” aparecem. A complexidade fica visível. E exatamente aí nasce a grande ruptura entre o profissional e o semi-profissional.
A ignorância coletiva virou um excelente negócio.
Nunca houve tantos “professores”, “instrutores”, “mentores”, “palestrantes” e influenciadores. Pessoas que ensinam em um dia o que leva anos para ser compreendido. Levain em um workshop. Chocolate em um fim de semana. Panetone em três lives. Tudo rápido. Tudo vendável. Tudo com marketing agressivo.
O comércio digital floresce justamente porque faltam profissionais de verdade no mercado. Falta base. Falta formação longa. Falta método. E sobra promessa.
Milhares e milhares lotam feiras, congressos, shows de confeitaria. Saem motivados, acreditando que agora vai. Pouco tempo depois, vem a frustração. A depressão. Muitos desistem. Outros entram no lugar. Um ciclo constante. O sistema não se importa. Sempre haverá novos alunos para pagar.
Quem tem anos de estrada sabe. Nada é fácil.
Tudo precisa ser construído. Conhecimento não elimina problemas, ele revela novos. Quanto mais se aprende, mais se percebe o quanto ainda falta aprender.
E então surge a pergunta incômoda. Como alguém consegue “ensinar” um tema extremamente complexo em um dia, quando mesmo após décadas de prática ainda estamos aprendendo? Eu, com anos de experiência, jamais me chamaria de professor absoluto de fermentação natural, por exemplo. É um sistema vivo, variável, dependente de contexto, clima, farinha, tempo e mão humana.
Mas esses cursos vendem. E vendem bem. Aparentemente, quem ensina vive disso. Se os alunos também vivem depois, ninguém acompanha. Sabemos apenas que escolas formaram milhares e, ao mesmo tempo, o mercado clama por profissionais qualificados. Algo não fecha.
Enquanto isso, escolas técnicas fecham. Aconteceu na Europa. Está acontecendo em outros lugares. No lugar da formação sólida, entram atalhos. Pseudo-ensino. Pseudo-profissionais.
O que aconteceu com nosso ofício? Vamos entregá-lo de vez à indústria, à robotização, aos pré-misturados? Extrair o máximo dos estudantes enquanto ainda há interesse? E depois?
Eu tenho minhas inquietações. E você, como enxerga o futuro da profissão?



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