A profissão que corre o risco de terceirizar o próprio cérebro
Nos últimos meses algo curioso aconteceu comigo: o Facebook passou a destacar, quase toda semana, meus textos como exemplos de conteúdo autêntico e de alta qualidade. Fiquei honestamente surpreso. No fundo, o que publico não é “genialidade”, nem segredo industrial. É apenas material profissional normal, aquilo que se aprende em boas escolas técnicas e de mestres na Europa Central.
Talvez justamente por isso chame atenção: porque é real, não fabricado em série.Hoje, mais de 50% dos conteúdos na internet – textos, vídeos, reels – já são gerados por inteligência artificial. A tendência é de alta. Isso já tem até apelido lá fora: IA Slop. Uma enxurrada de material raso, repetitivo, bonito por fora e vazio por dentro. Como disse Richard David Precht, corremos o risco de sermos a primeira geração da história que terceirizou a própria inteligência de forma voluntária.
Na nossa área isso é especialmente perigoso, porque confeitaria e chocolataria já estão em posição frágil:
- muitos trabalham demais e estudam de menos
- os salários nem sempre acompanham a complexidade do ofício
- o mercado valoriza aparência rápida mais do que técnica sólida
- Ela escreve o texto do anúncio.
- Ela cria as fotos perfeitas.
- Ela “inventa” receitas virais.
- Ela corrige a ficha técnica.
Precht fala do “pensamento terceirizado” e do “afrouxamento da autonomia mental”. No nosso universo isso aparece assim:
- em vez de entender hidratação, pedimos à IA a fórmula “pronta”
- em vez de estudar cristalização de gordura, pedimos “o melhor ponto da ganache”
- em vez de interpretar por que o pão estourou, perguntamos “qual é o erro?” e aceitamos qualquer resposta
E sem perguntas não existe conhecimento. Só informação.
Quando mais de metade dos colegas já usa IA diariamente, muitas vezes sem qualquer revisão crítica, forma-se um cenário perigoso:
- erros graves com cara de verdade
- informações distorcidas com linguagem “profissional”
- mentiras técnicas embaladas como “segredo de mestre”
Quem tem um pouco mais de formação percebe logo os absurdos. Mas o público e os estudantes não. Eles veem números, likes, aparência de sucesso. E aos poucos começam a se identificar com esse padrão superficial. A profissão, que já é desvalorizada, afunda mais um pouco no raso.Aí entra a palavra que, para mim, voltou a ser central: autenticidade.
Autenticidade não é “fazer tudo à mão” e rejeitar qualquer tecnologia. Eu mesmo uso IA todos os dias: para corrigir meu português, para estruturar ideias, para gerar imagens, porque não tenho o equipamento necessário. Mas existe uma fronteira clara:
- o conteúdo, o pensamento, a lógica, o julgamento técnico – isso precisa ser nosso
- a IA pode polir a frase, mas não pode inventar a experiência
- ela pode sugerir, mas não pode decidir quem somos como profissionais
Informação é: “Use 35 °C para aplicar essa glaçagem.”
Conhecimento é: “Com este tipo de açúcar, gordura e umidade, abaixo de 30 °C ela engrossa demais, acima de 40 °C perde brilho.”
Sabedoria é: “Para este cliente, com esse clima, nessa vitrine específica, faz sentido ajustar a textura e mudar a técnica.”
A IA pode despejar informação. Às vezes ajuda a organizar conhecimento. Mas sabedoria nasce de prática, erro, observação, responsabilidade. E disso ela não participa. Quem responde ao cliente é você. Quem assume o fracasso de uma fornada é você. Quem forma um aprendiz inseguro é você.
Já temos uma profissão onde muita gente copia receitas sem entender processos.
Se agora ainda terceirizarmos o pensamento para algoritmos, ficamos com vitrines bonitas, mas sem cérebro por trás.
Minhas preocupações são simples e diretas:
Mas usar IA para substituir estudo, questionamento, experimentação, isso é abrir mão do que nos torna profissionais.
No fim do dia, quando o forno esfria e a cozinha fica silenciosa, a pergunta que fica não é quantos reels você postou, nem quantas legendas a IA escreveu. A pergunta é outra:
Se a resposta é não, a IA está ocupando o lugar que deveria ser seu.
Eu vou continuar usando IA para melhorar minha comunicação. Mas o pensamento, a lógica e a responsabilidade pelo que ensino continuam sendo meus. E é isso que eu desejo para a confeitaria e a chocolataria: tecnologia a serviço do ofício, não no lugar do ofício.
PROFISSIONAIS FORTES NÃO BUSCAM ATALHOS.
BUSCAM CONHECIMENTO.
Minhas preocupações são simples e diretas:
- que a próxima geração de confeiteiros cresça acreditando que pensar é opcional
- que mestres sejam trocados por tutoriais “perfeitos” escritos por IA
- que a aprendizagem lenta, com dúvidas e erros, seja vista como perda de tempo
- que o algoritmo, e não a consciência profissional, defina o que é “sucesso” na nossa área
Por isso, não se trata de demonizar a IA. Trata-se de defender nosso cérebro.Usar IA para corrigir texto, organizar planilhas, traduzir um artigo técnico, tudo bem.
Mas usar IA para substituir estudo, questionamento, experimentação, isso é abrir mão do que nos torna profissionais.
No fim do dia, quando o forno esfria e a cozinha fica silenciosa, a pergunta que fica não é quantos reels você postou, nem quantas legendas a IA escreveu. A pergunta é outra:
- Você entende o que faz?
- Você consegue explicar o porquê de cada etapa?
- Você consegue corrigir um erro sem “perguntar para a máquina”?
Se a resposta é não, a IA está ocupando o lugar que deveria ser seu.
Eu vou continuar usando IA para melhorar minha comunicação. Mas o pensamento, a lógica e a responsabilidade pelo que ensino continuam sendo meus. E é isso que eu desejo para a confeitaria e a chocolataria: tecnologia a serviço do ofício, não no lugar do ofício.
PROFISSIONAIS FORTES NÃO BUSCAM ATALHOS.
BUSCAM CONHECIMENTO.
E você, como está usando a IA no seu dia a dia?
Ela está te ajudando a pensar melhor ou já começou a pensar por você?
Ela está te ajudando a pensar melhor ou já começou a pensar por você?

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