Entrevista com o brilhante professor Carlo Möckli: Revista Padaria 2000
A edição de junho da Revista PADARIA 2000 traz ainda uma entrevista com o brilhante professor Carlo Möckli. Vale a pena conhecer um pouco o trabalho, os ensinamentos e as opiniões do mestre. Pedro Eugênio Prado
Primeiramente,
professor, gostaria que o senhor nos contasse um pouco de sua vida,
do começo de seu trabalho na confeitaria e chocolataria e sua
formação profissional.
Nasci
na cidade de St. Gallen na Suíça, numa família de trabalhadores,
meu pai suíço e minha mãe italiana, tenho dois irmãos e uma irmã.
Comecei minha formação profissional aos 16 anos como aprendiz de
Confeitaria e Chocolateria na cidade de Rorschach, onde cresci e
passei minha infância. Durante 3 anos estudei e trabalhei como
aprendiz e assim me formei como Confeiteiro e Chocolatier. Nos cinco
anos seguintes trabalhei e estudei para o mestrado. Aprendi
contabilidade, administração, marketing e gerenciamento de pessoal.
Fiz mestrado em várias áreas da gastronomia. Concluí o mestrado
com as melhores notas da Suíça...
Qual
foi sua motivação em se estabelecer no Brasil?
Minha
esposa é brasileira, nos conhecemos em Londres, nos casamos e depois
de 18 na Europa, decidimos nos mudar para o Brasil.
Quais
são seus trabalhos envolvendo a formação de mão de obra nos
segmentos de confeitaria e chocolataria?
Na
Suíça recebi do governo o título de “Expert” e fui responsável
por formar muitos profissionais como chefs e mestres nessas áreas,
treinando-os como aprendizes nas indústrias onde trabalhei. Estou
fazendo a mesma coisa no Brasil, formando profissionais em escolas de
gastronomia, consultorias particulares e para muitas empresas pelo
Brasil.
Como
funciona sua escola e seus cursos? A quem eles se destinam? Quantos
alunos já passaram por seus cursos?
Ministro
cursos em escolas de gastronomia por todo o Brasil, eles se destinam
a qualquer pessoa que tenha interesse na profissão, tanto aquele que
só quer uma boa receita, como profissionais que querem mudar de área
ou para aqueles que querem aprofundar o conhecimento e conhecer os
princípios que regem a confeitaria e chocolateria. Ministro cursos
que podem durar desde de 3hs a 128 horas. Já tive o privilégio de
dividir conhecimento com alguns milhares de alunos.
Como
o senhor vê a formação de mão de obra especializada no Brasil?
Como o senhor acha que ela poderia ser melhorada?
Nos
últimos anos o Brasil melhorou muito a oferta de cursos e
possibilidades de formação nessas áreas, com mais escolas,
cursos e bons professores. O brasileiro tem muita criatividade e
talento na área da gastronomia, mas precisa ainda de um conhecimento
mais profundo dos princípios que regem essas áreas. É como a
árvore, que não cresce só para os lados e para cima, mas precisa
de raízes profundas. O Brasil precisa de mais conhecimento da
química e física da confeitaria e chocolateria.Talento o Brasil já
tem, agora é necessário mais conhecimento teórico dessa
maravilhosa profissão. Parte da minha missão é ensinar esses
princípios e não só receitas legais.
Qual
sua opinião sobre os pães e doces fabricados e comercializados nas
padarias e confeitarias do Brasil? Quais suas sugestões para que
tenham mais qualidade e vendam mais?
A
padaria e confeitaria brasileira têm produtos maravilhosos, com suas
raízes culturais e regionais. A criatividade do brasileiro sempre me
impressionou, tenho muita admiração pela riqueza natural do país,
com ingredientes que eram desconhecidos para mim. Ainda estou
aprendendo a usá-los! Mas, quem resiste a um pãozinho fresco?
Porém, para aumentar a qualidade e a venda, o Brasil precisa elevar
seus produtos para um nível mais alto, como por exemplo, um panetone
original não é feito em 3 horas, precisa de uma fermentação de
até 72 horas. Para isso é preciso haver mais conhecimento sobre a
fermentação, que é um processo químico e biológico. Mais
conhecimento sobre o marketing do produto, mais ingredientes de alta
qualidade. A fermentação natural está na moda, os produtos terão
muito mais sabor do que misturas prontas e consequentemente as vendas
irão aumentar.
O
senhor deve ouvir muitos comentários de seus alunos sobre seus
empregos, sonhos e objetivos. Como o senhor acha que poderia melhorar
o relacionamento entre patrões e empregados de empresas de
panificação, confeitaria e chocolataria no Brasil, para que todos
ficassem mais satisfeitos e realizados em suas profissões?
Sim,
tenho sempre o privilégio de participar da criação dos sonhos dos
meus alunos e ajudá-los a transformar esses sonhos em realidade. Meu
sonho e alvo é que meus alunos me ultrapassem. Como consultor de
diversas empresas pelo Brasil tenho visto que a brecha no
relacionamento entre patrões e empregados é muito grande, por causa
dos diferentes interesses. Aprendi que, se eu enriqueço meu chefe,
dou a ele as condições financeiras para me fazer rico também,
porém, esse não tem sido o caso no Brasil. Podemos, por exemplo,
ajudar a fechar essa brecha dando aos trabalhadores porcentagens do
lucro da empresa. O empregado precisa se identificar muito mais com a
missão da empresa e os patrões precisam dividir mais os ganhos
financeiros com os empregados. Os patrões precisam entender que o
verdadeiro ouro de uma empresa são os funcionários.
Falando
de fabricação de pães, doces e chocolates, como o senhor avalia as
matérias-primas oferecidas aos nossos profissionais? Como elas podem
melhorar?
A
matéria-prima no Brasil precisa melhorar. As declarações do
fornecedor sobre a matéria-prima também precisam melhorar. Existem
muitas oscilações na qualidade da matéria-prima, mas tudo tem a
ver com o fato de que o padeiro, confeiteiro ou chocolatier não é
formado para avaliar isso. O profissional deve saber, por exemplo,
quanta proteína tem a farinha de trigo. Um padeiro precisa usar uma
farinha que tenha um teor mais alto de proteína do que a farinha
usada na confeitaria. Um chocolatier não sabe qual o tipo de cacau
que está sendo usado ou quantas horas de conchagem teve o produto,
que são informações sobre a qualidade da matéria-prima. Os
profissionais precisam fazer mais pressão sobre as industrias,
exigindo mais informações sobre o produto. A qualidade do produto
começa com o conhecimento do profissional.
Quais
as vantagens de se trabalhar como confeiteiro e chocolateiro no
Brasil? E quais as desvantagens?
Aprendi
com os brasileiros que tudo é possível! Mesmo o Brasil sendo um
país tropical, com “um jeitinho” podemos fazer produtos da
confeitaria e chocolateria que precisariam de no máximo 24°C de
temperatura ambiente. Porém, é uma desvantagem ter que trabalhar
com chocolate hidrogenado e fracionado. Outra desvantagem é que
essas profissões ainda são muito desvalorizadas e os salários são
muito baixos ainda. Quem sabe se mais conhecimento e qualidade seja a
resposta?
De
tudo o que o senhor ensina, o que lhe dá mais prazer? Em quais
cursos os alunos se saem melhor, mostram mais talento e aptidão? Por
quê?
Quero
que o aluno tenha sucesso. Fico muito feliz quando vejo que o aluno
cresceu, abriu uma empresa, realizou seu sonho. Mas, ensinar e me
duplicar é um grande prazer. Não me importo muito em apararecer,
quero que o aluno apareça! O curso de chocolate é meu carro chef,
mas encontro talentos em todos os cursos. O brasileiro tem fome de
conhecimento, fome de aprender. Os alunos são muito gratos por tudo
que eu ensino, seja na área de padaria, confeitaria ou chocolateria.
Caso
o senhor deseje mencionar ou falar sobre outros assuntos ou temas que
não foram perguntados, fique à vontade para incluir em suas
respostas.
Palavra
de Chef:
Ter
produtos que dão água na boca é muito importante, mas gostaria de
falar sobre a importância de estudar mais sobre a profissão.
Estudar mais a química e física, sobre as reações químicas das
misturas de ingredientes, estudar mais sobre a matéria-prima e como
ela funciona. Isso vai lançar os profissionais brasileiros para
outro nível. Só assim você conseguirá produzir sempre com a mesma
qualidade, sabor, beleza, satisfazer o cliente e vender mais. Essas
dicas vão valorizar ainda mais nossa profissão.
“Em
resumo, a cozinha, sem deixar de ser uma arte, irá se tornar
científica; e deverá submeter suas fórmulas, na maior parte das
vezes ainda empíricas, a um método e a uma precisão que não
deixarão espaço para o acaso.”
Aguste
Escoffier (em 1907)




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